Medicalização da vida escolar: cartografia de práticas implicadas na produção do fracasso escolar e do "aluno-problema"
Rego, Marise Brito do
repositorio.ufc.br
O presente trabalho situa-se na interface entre os campos da Educação e da Psicologia, propondo-se a cartografar práticas implicadas na produção do fracasso escolar e do “aluno-problema”. A problemática da pesquisa surgiu a partir da atuação da pesquisadora enquanto psicóloga no contexto educacional, em que se deparou com queixas e demandas, advindas tanto dos educadores quanto dos familiares, sobre os “alunos-problema”: aqueles que possuem dificuldades de aprendizagem e não avançam nos conteúdos propostos ou aqueles que, de algum modo, apresentam uma inadaptabilidade às rotinas de um cotidiano escolar. Desse modo, a pesquisa buscou analisar o cotidiano e o espaço escolar como lócus de produção do fracasso, discutindo como as práticas medicalizantes e o discurso do especialista atravessam o cotidiano de uma escola privada da cidade de Parnaíba-PI. Por fim, procurou problematizar, juntamente com os professores e gestores da escola lócus, as práticas pedagógicas educacionais dos segmentos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I. A partir de uma perspectiva crítica e à luz dos estudos foucaultianos, a presente pesquisa traz a problemática da medicalização da infância e do fracasso escolar sob uma ótica histórica e social, distanciando-se do viés organicista e biologizante. Por isso, ganha sua relevância ao discutir, de modo implicado, uma temática que, cada vez mais, insere-se nos contextos educacionais, manifestando-se devido aos diversos transtornos relacionados à infância. Tendo em vista o objeto e os objetivos traçados, o estudo assumiu um viés qualitativo, utilizando-se da perspectiva da pesquisa-intervenção e adotando, para tanto, a cartografia como estratégia metodológica e ethos de pesquisa. Cartografar práticas no espaço escolar significa acompanhar os processos que lá se dão, observando os jogos de saber/poder, os discursos de verdade, as linhas de força e as resistências; que de algum modo atravessam esse cotidiano e relacionam-se com a produção do fracasso escolar e com a medicalização da vida. A pesquisa teve como participantes 12 profissionais da educação que atuam nos segmentos da Educação Infantil e Ensino Fundamental I (até o 3º ano) da escola lócus. Para a produção dos dados foram realizadas observações-participante e três rodas de conversa. Os diários de campo e as gravações de áudio e vídeo serviram como ferramentas de registro dos dados produzidos. A partir dessas estratégias e ferramentas, foram evidenciadas questões que serviram como analisadores dos processos de produção do fracasso e medicalização da vida escolar. Essa produção se mostrou atravessada por múltiplos vetores como: práticas pedagógicas, condições de trabalho docente, contexto social e familiar das crianças e a presença do especialista e discurso médico psicológico no espaço escolar. Apesar disso, também se rastrearam discursos e práticas, ainda tímidos, que escapavam àqueles instituídos, abrindo passagem para que devires e singularizações pudessem se expressar e ocorrer. Espera-se que esta cartografia possa contribuir com a produção de novos agenciamentos e novas práticas no espaço escolar.